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SILVANA DUBOC

Vieram lhe convidar para um chopp, o programa não
lhe percebeu muito interessante.
Quem mais ira?
Seria em qual bar?
A noite estaria fria?
Ah...melhor ficar em casa, pensou ele.
Lá, entre aquelas quatro paredes, havia uma grande
companheira que não lhe exigia que tomasse um
super banho, nem colocasse uma bonita roupa, nem
passasse um agradável perfume e depois ainda
tivesse que articular palavras e sorrisos.

Pensando assim, em casa ficou, como na maioria dos
dias dos últimos quatro anos de sua vida. Amarrado
a uma cadeira, hipnotizado por uma tela de
computador e trocando idéias com inúmeras mulheres
que não conhecia e que provavelmente, muitas
delas, nunca viria a conhecer.

Com o passar do tempo, quilos foi ganhando. No
corpo e na mente, um acúmulo de gorduras se
formando.
Alguns pequenos problemas de coluna também foram
surgindo, dores nas pernas, inclusive. Claro,
aquela vida sedentária começou a dar os seus
primeiros sinais.

Era um entra e sai em salas de bate-papo, uma
busca incessante sabe-se lá de que. Sempre cumpria
o mesmo ritual:
Seu nome?
Idade?
Estado civil?
Altura, peso (detalhe importante)
Procuras o que por aqui? O mesmo que eu?
(Se bem que ele nem sabia o que procurava)

Escravos da Internet não sabem exatamente o que
procuram, se um amor ou inúmeras aventuras ou quem
sabe até, a fuga do mundo real.
Criava coragem para levantar daquela cadeira só
para sair com uma hoje, outra amanhã e sempre
muito orgulhoso do volume de mulheres que
conseguia conquistar.
Mas será que conseguia mesmo?

Colecionava fotos numa pasta que criou em seu
micro na qual colocou o nome de-------ELAS, com
algumas subpastas é claro - feias, bonitas, altas,
baixas, loiras, morenas, casadas, solteiras,
gordas, magras, novas, velhas.

Em nenhuma dessas mulheres deixava rastros, com
nenhuma construía laços.
Eram cinqüenta saídas inúteis para uma agradável,
mas a que se fazia agradável, em muito pouco tempo
se tornava desinteressante, porque a ânsia de
conhecer outras não permitia que ele se detesse em
nenhuma.

Do alto dos seus quarenta aninhos, transformava-se
em um garoto de dezoito ao perceber que para a sua
lista de conquistas arrematou uma de vinte. Na
verdade, nem conseguiu ver suas qualidades, apenas
que ela possuía pouca idade, motivo de glória para
ele essa conquista, era como se fosse um troféu.

Com o tempo também, a Internet foi lhe roubando
certas coisas, como por exemplo, o senso do
ridículo, o discernimento entre o viável e o
inviável, a dignidade, o entendimento do que é ser
um homem de verdade, o sabor de amar, o prazer de
realmente fazer amor. A Internet foi capaz até, de
nele, passar uma borracha naquela linha divisória
que existe dentro de cada um de nós, que separa a
realidade da ilusão, a verdade da mentira.

Ele acredita piamente que escolhe suas conquistas,
que determina as mulheres que quer, não percebe
que é ele quem está por todo o tempo estagnado no
mesmo lugar e elas é que passam por ele por
períodos rápidos até chegarem ao seu destino.
Ele, no entanto, não tem caminhos a seguir, vive
como árvores na beira da estrada , que vistas da
janela de um carro em movimento passam como um
flash ...

Amigos? Foi abrindo mão de todos...
Calor humano?
Não sabe mais o que é isso...
Sinceridade, realidade? Esqueceu o que é...
Fazer amor, com cada parte do corpo, com alma,
coração, derramando por cada poro gotas de desejo?
Não se recorda mais como é isso...

Hoje ele faz sexo com letras e também com corpos
que minutos depois nem se recorda mais do cheiro,
nem mesmo o gosto do beijo...
Há uma coisa na vida que não se pode recuperar - o
tempo perdido - mas em algum momento todos sempre
se dão conta disso e tentar regressar no tempo é a
parte mais sofrida da vida de um ser humano,
porque ele acaba descobrindo que não existe trem
de volta, todos seguem sempre em frente e na
maioria das vezes, velozes.

Dependente químico da Internet, foi isso que ele
se tornou e com isso algumas vezes passaram por
ele mulheres que valiam muito a pena, mas coitado,
ele nem conseguiu perceber, não teve tempo, assim
como provavelmente também não terá tempo pra ler
esse texto.
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