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Saudades
Mãe... como estou com saudades de você !
Já fazem mais de vinte anos que você foi embora.
Se eu vivesse mil anos, nem assim a esqueceria !
Como era bom ser criança !
Lembra mãe, da casa da chácara ?
Aquela cozinhona comprida
de chão de terra batida, que precisava esborrifar água no chão pra varrer,
pra não levantar o pó?
E da parede de pau a pique: Daqueles buracos onde havia caído o barro,
a gente, de dia enxergava lá fora, mas em noites de lua, era ela que entrava
com sua claridade, buraco à dentro, formando nas paredes desenhos engraçados.
O fogão de lenha, e a tripecinha que você colocava na rabeira do fogão
pra eu me sentar quando fazia frio.
Aquela mesona com um canto quebrado, o bancão de madeira,
o lugar do papai, a colher amarela que era só dele, a prateleira dos potes:
pote d'água pote de doce, lata de gordura com lombo de porco curtido.
O fumeiro em cima do fogão, com lingüiça e toucinho.
As caçadas de rolinhas
que Olice e eu fazíamos com arapuca, debaixo do pé de lima.
Você fazia uma panelada !
que delícia !
Lembra quando a tia Nica, pensando que era uma tripeça
sentou na gamela de água suja.
Nós rimos, mas ela chorou.
Coitada não é mãe?
Quando chovia você sempre fazia bolinhos de trigo fritos, por que?
Quando dava aqueles temporais com relâmpagos e trovões, você pegava o livrinho
velho de hinos, talvez o mesmo do tempo da sua mocidade,e nós três
sentados nas tripeças, você no meio, alumiando com o lampião de querosene, para enxergarmos as letras, e cantávamos:
Chuvas de benção teremos
Manda-nos já o Senhor
Dá-nos já hoje os frutos
Dessas palavras de amor
Chuvas de benção
Chuvas de benção do céu
Gotas benditas só temos
Chuvas rogamos à Deus
Somente a sua voz aparecia e como era bonita !
Obrigada mãe pela maneira sábia e tranqüila que você nos fez viver esses
momentos que a todos apavoram.
Nos sábados quando o papai ia para o clube vocês inventavam uma tocata,
o Jorge e o Nenen no violão, Abener no pandeiro, Toninho Vadico no cavaquinho, e você
acompanhava com duas colheres e cantava com eles .
Enquanto a Maria namorava
o Paco, você parecia uma rainha no meio da moçada.
Depois do café com bolinho, eu sempre dormia em cima dos
pelegos num canto da sala.
Mãe é tão triste recordar!
A saudade dá uma dor tão grande no peito!
MÃES NUNCA DEVERIAM MORRER!
Tenho saudades de todos que se foram, mas você é diferente, é uma
saudades que dói dentro da alma!
Muitas vezes vimos você chorar quietinha, só percebíamos pelas lágrimas
que desciam pelo seu rosto, não sabíamos a razão.
Hoje sei perfeitamente que
as suas lágrimas eram de saudades da sua mãe !
Mãe perdoe-me se perturbo você com o meu pranto e o meu desabafo,
se estivesse aqui, por certo eu estaria chorando no seu colo ou sorrindo com a
sua presença.
mas como não posso vê-la, me debruço em lágrimas sobre o meu caderno.
Tchau mãe até outro desespero, perdoe sua filha
Lydia Prando De
Souza |