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Rio
São Francisco

Lydia Prando de
Souza
O
velho Chico !
Assim
é chamado, velho pelos séculos de existência, porém,
jovem por ser o ventre materno onde se reproduzem
milhões e milhões de vidas, novo pela renovação de suas
águas, que correm calma,serena e tranqüilamente seguindo
seu destino.
Sobre
suas águas há sempre um vai e vem de lanchas levando
pessoas alegres e tristes, barcos de pescadores,
buscando o pão de cada dia para os barrigudinhos de cara
rajada e bunda de fora e para a sua “cara metade”que tem
oito filhos no chão, um no colo, outro no bucho e mais
um no pensamento.

O
velho chico acolhe a toda essa gente com os braços
abertos _:Estou aqui! venham buscar em mim a paz para
seus lares e o conforto para seus estômagos
“. Ele
proporciona prazer e alegria, especialmente ao turista
que nunca viu uma balsa atravessando o rio levando no
seu bojo; ônibus; carros carretas e caminhões, e que
nunca ouviu o cantarolar das lavadeiras, que na margem
do rio lavam, as calças branquinhas do “seo Dotô”até a
camiseta encardida e cravejada de furos, do zequinha...
e na cantiga e no bater das roupas nas pedras, para
tirar a sujeira, o velho chico vibra de prazer por ser
útil à quem dele precisa!

Mas
quando cessa o lufa-lufa de gente apressada, ou sem
pressa, as lanchas e as barcas se encostam nas margens.
A
noite entra adentro ...
A
Natureza se aquieta para ouvir do rio o seu soluçar, no
seu coração continuam os peixes a fervilhar ...

Ele
sente a ausência; do sorriso da criança, do grito do
canoeiro, do nome feio do pescador, quando sua rede
enrosca num galho de pau, que alguém , maldosamente,
jogou, das pessoas muito importantes que por ele
passaram, daqueles que cortam suas águas, jogam entulhos
e roubam os seus peixes.

Por
tudo isso o Velho Chico aproveita a escuridão da noite
para chorar.
Porém
, ninguém ! ... ninguém jamais viu suas lágrimas, porque
elas são parecidas com as águas e com elas se misturam
!!!

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