Reflexão  

 

Lydia Prando de Souza

 

  Hoje ouvi tantas palavras tristes e sofridas, vi em cada olhar uma certa tristeza, senti nos corações uma certa procura, encontrei tantas vidas vazias, varias dores ao mesmo tempo, notei que eu também era um pouquinho daquilo que eles sentiam.

 Vi tantas crianças de todas idades e tamanhos, feições e gestos iguais, quando não muito parecidas, eram inocentes, carentes de tudo.

Revivi o meu passado, me retratei naquelas crianças. 

Vi homens pequenos e crianças grandes.

Recebi muitos abraços ; abraços sem braços e abraços com o coração.

Vi que as pessoas estão cada vez mais distantes das outras, que as opiniões estão sempre contrárias, entendi que não devia falar.

Vi os olhos no fundo, do trabalhador que não jantou porque o patrão não lhe pagou. 

Vi o idoso implorando a compreensão do jovem, querendo dizer que ele também tem muito amor, tanto calor humano e não tem para quem dar.

Me senti jovem e idosa ao mesmo tempo.

  Então clamei : “Meu Deus, porque tanta tristeza na terra ?

“ E ao levantar meus olhos para o céu, vi as nuvens se formando num azul acinzentado, numa beleza sem par.

Ouvi o velho dizer  que nesta época do ano nunca choveu ...

Meus olhos estavam fitos no céu ... Os pingos de chuva começaram cair e a água jorrou copiosamente, o cheiro da terra molhada  encheu minhas narinas, vi crianças sorrindo, correndo debaixo da chuva, vi pessoas alegres e esperançosas.

Ouvi risos de alegria.

                  Me desliguei dos ruídos para uma reflexão:

“ Porque essa mudança repentina de valores ? “

Então compreendi que era o meu coração que estava triste,  toda amargura que vi, estava entranhada na minha alma, porque meus olhos somente olhavam para a terra.

                  Hoje eu vi a chuva cair neste sertão e senti meu coração lavado por ela.

 

  Agrovila 15 Bahia  / junho 92